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O silêncio

Desintoxicação digital: 72 horas sem ecrã

O jardim da Casa Lotus Azul, no Minho

Resposta curta — Nas primeiras horas, a maioria das pessoas sente um impulso repetido de pegar no telemóvel. Por volta do segundo dia, esse impulso diminui. O que regressa — atenção, tédio, sensações físicas, memórias — não é igual para toda a gente. Aqui descrevemos o que observamos ao longo de vinte e sete anos de acolhimento em silêncio.


O telemóvel fica na chegada

Quando uma pessoa chega à Casa Lotus Azul, existe um momento preciso: depositar o telemóvel.

Não é uma regra arbitrária. É uma condição do retiro. O aparelho fica guardado. Um número permanece disponível para os familiares que precisem de contactar em caso de urgência. No final do retiro, o telemóvel é devolvido.

Três dias depois, as reações ao recuperá-lo variam muito. Algumas pessoas pegam nele de imediato. Outras deixam-no na mesa durante o almoço, como se precisassem de mais tempo.

O que acontece entre esses dois momentos é o que este artigo tenta descrever, sem julgamento sobre os ecrãs e sem promessas sobre o que vai sentir.


As primeiras horas: o impulso repetido

O que mais se observa nas primeiras duas a três horas é um gesto interrompido.

A mão move-se para o bolso. A pessoa percebe que não há nada lá. Fica um instante parada. Retoma o que estava a fazer.

Isto acontece em contextos precisos: à espera que o jantar comece, no intervalo entre duas meditações, ao acordar de manhã. São os momentos em que o hábito de verificar o ecrã estava instalado sem que a pessoa se tivesse apercebido.

Não é abstinência no sentido médico do termo. É a evidência de um hábito muito repetido que, de repente, não encontra resposta. A sensação é mais de surpresa do que de sofrimento. Mas pode ser desconfortável, especialmente para quem não a esperava.

A melhor preparação é simplesmente saber que vai acontecer.


O que ocupa o espaço deixado pelo ecrã

Quando o telemóvel não está disponível, outros conteúdos internos ocupam esse espaço.

Nem sempre são agradáveis. Às vezes é inquietação — a sensação de que havia qualquer coisa para fazer, para responder, para verificar, e que essa coisa ficou pendente. Às vezes é tédio, no sentido literal: nada acontece, e isso parece estranho.

Também podem surgir pensamentos que, no dia a dia, ficam tapados pela atividade constante do ecrã: uma conversa inacabada, uma decisão adiada, uma preocupação que estava lá mas nunca tinha sido olhada de frente.

Este aspeto pode ser difícil. Não é o objetivo do retiro criar desconforto, mas o silêncio e a ausência de estímulos externos tornam certas coisas mais visíveis. As meditações guiadas da manhã e da tarde servem, entre outras coisas, para acompanhar esse processo. Fabiana está disponível durante o silêncio — por escrito, se necessário.

Se atravessa um luto recente, uma separação ou um período de fragilidade psicológica, falamos sobre isso antes da chegada. E recomendamos sempre consultar um profissional de saúde antes de reservar, para avaliar se o momento é adequado.


Segundo dia: o ritmo muda

Por volta do segundo dia, algo se altera.

O impulso de pegar no telemóvel não desaparece completamente, mas torna-se menos frequente. A atenção começa a fixar-se noutras coisas: o som da ribeira em baixo, a textura do granito das quintas, o gosto da refeição.

Não é transformação. É simplesmente que, quando não há notificações, o sistema nervoso começa a encontrar estímulos noutro sítio. Estes estímulos são mais lentos, mais discretos, e exigem um tempo de atenção diferente daquele a que o ecrã habituou.

Algumas pessoas descrevem uma sensação de abrandamento. Outras sentem-se inquietas porque esperavam sentir algo diferente. Não há resposta certa.

O que observamos com regularidade é que o sono muda. Sem ecrã antes de adormecer, sem verificação ao acordar, o sono tende a ser mais contínuo. Mas não garantimos nada — cada pessoa é diferente.


O silêncio entre participantes

No retiro Retorno a Si, vigora o silêncio nobre: os participantes não falam entre si. Podem dirigir-se a Fabiana, por escrito se preferirem.

Isto tem uma consequência direta na forma como o tempo é vivido. Quando não há conversa disponível, a atenção não se dispersa pela socialização. Cada pessoa fica mais consigo própria.

Para algumas, isso é alivio. Para outras, é a parte mais difícil — mais do que não ter o telemóvel.

A combinação dos dois — sem ecrã, sem conversa — cria uma condição pouco frequente na vida quotidiana: tempo sem preenchimento externo. Não é vazio. É simplesmente tempo que não está organizado em torno de estímulos.


O carnet de notas

Sugerimos trazer um pequeno caderno.

Não para registar o que a pessoa "deve" sentir. Mas porque, quando o hábito de verificar o telemóvel perde o seu lugar, às vezes surgem pensamentos que valem a pena guardar: uma ideia, uma memória, uma frase que apareceu durante a meditação.

Escrever à mão ocupa um tempo diferente do que escrever num ecrã. É mais lento. A mão cansa. Isso, em si, cria uma seleção natural do que merece ser escrito.

Não é uma prática obrigatória. É uma sugestão que muitos participantes acabam por valorizar.


O que não acontece

É importante ser honesto sobre o que este retiro não garante.

Não prometemos uma revelação. Não prometemos que vai sair diferente. Não prometemos que a relação com os ecrãs vai mudar definitivamente depois de três dias.

O que podemos dizer — e o que observamos ao longo de vinte e sete anos — é que algumas pessoas regressam com uma perceção mais clara dos seus hábitos. Mas isso é diferente de uma transformação. E não acontece necessariamente a todos.

A investigação sobre os efeitos da meditação e do silêncio existe, mas tem limites. Uma meta-análise publicada no Journal of Psychosomatic Research em 2017 por Khoury e colaboradores analisou 21 estudos com 2 912 participantes e encontrou um efeito moderado. Os próprios autores sublinham a falta de rigor metodológico em muitos dos estudos incluídos. Não utilizamos esses dados para fazer promessas.

Também não prometemos que as 72 horas sem ecrã vão "curar" qualquer relação difícil com a tecnologia. Isso não está ao alcance de um retiro de três dias, e seria desonesto afirmá-lo.


O que se passa no corpo

Aqui descrevemos o que é relatado, não o que é medido.

Sem o ecrã antes de dormir, muitas pessoas acordam com uma sensação de sono mais reparador. Sem o peso das notificações, os ombros parecem menos tensos durante o segundo dia. Sem o ritmo acelerado das redes sociais, o próprio passo durante uma caminhada no jardim tende a abrandar.

Estes são relatos subjetivos. Não são dados clínicos.

O que o lugar oferece objetivamente: um hectare de jardim, uma ribeira em baixo, a montanha à volta, nenhum vizinho, dois espaços em granit — a Quinta Maria da Paz e a Quinta Lotus Azul —, refeições vegetais preparadas com produtos da horta. E silêncio. Não silêncio absoluto — a natureza faz barulho — mas ausência de estímulos artificiais.

Pode ler mais sobre como decorre uma jornada aqui: Como decorre um dia na quinta.


A devolução do telemóvel

O momento de recuperar o telemóvel é, por si só, revelador.

Não no sentido dramático. Mas quando o ecrã volta a acender, o contraste com as 72 horas anteriores é imediato. As notificações acumuladas — mensagens, e-mails, atualizações — surgem todas ao mesmo tempo.

Algumas pessoas olham para isso com uma certa distância que não tinham antes. Outras mergulham imediatamente e sentem que o retiro "ficou para trás". As duas reações são normais.

O que acontece a partir daí depende de cada pessoa, do seu contexto, das suas escolhas. O retiro não decide isso por si.


Para quem é este retiro

O Retorno a Si está aberto a qualquer pessoa. As inscrições são individuais. O grupo tem no máximo oito participantes.

O retiro dura três dias e duas noites. O preço é de 360 € por pessoa, tudo incluído: alojamento, pensão completa vegetariana da horta, duas meditações guiadas por dia, tempo de trabalho pessoal.

Não é necessário ter experiência de meditação. Não é necessário ter uma relação "problemática" com o telemóvel. Algumas pessoas vêm simplesmente porque nunca passaram 72 horas sem ecrã e querem saber o que acontece.

Se tem dúvidas sobre se o momento é adequado para si — especialmente se atravessa um período de fragilidade —, fale connosco antes de reservar. E consulte um profissional de saúde se tiver alguma dúvida clínica.

Se está a pensar numa primeira experiência de retiro em silêncio, este artigo pode ser útil: Primeiro retiro em silêncio: 10 medos, e a realidade.


Comparação com outros formatos

Formato Duração Silêncio Sem ecrã Grupo
Retorno a Si – Casa Lotus Azul 3 dias / 2 noites Silêncio nobre entre participantes Sim Máx. 8 pessoas
Vipassana 10 dias Silêncio total Sim 50 a 150 pessoas
Retiro de yoga Variável Parcial ou nenhum Não sistematicamente Variável
Fim de semana de bem-estar 2 dias Geralmente nenhum Não Variável

O Vipassana é um formato diferente: dez dias, silêncio total, dez horas de meditação por dia, financiamento por doação livre. Em Portugal, não existe um centro permanente. Os cursos são organizados por uma associação de voluntários num espaço alugado no Algarve. O centro permanente mais próximo fica em Espanha, em Candeleda, na província de Ávila.


O preço e a logística

O retiro Retorno a Si custa 360 € por pessoa, tudo incluído.

Para referência: no mercado, um retiro acompanhado de três dias situa-se habitualmente entre 300 e 500 €. Um centro de yoga pode praticar entre 800 e 1 500 € por semana.

A chegada faz-se às 15h, antes do jantar. A partida é ao final da manhã do último dia.

A quinta fica em Rendufinho, Póvoa de Lanhoso, a vinte minutos de Braga e às portas do parque nacional de Peneda-Gerês.

Pode consultar os detalhes do alojamento e do espaço aqui.


Perguntas frequentes

Posso guardar o telemóvel no quarto e não o usar? Não. O telemóvel é depositado à chegada. É uma condição do retiro, não uma sugestão. Um número fica disponível para os seus familiares em caso de urgência.

E se receber uma chamada urgente? Os seus familiares têm um número de contacto. Se houver uma situação de urgência, serão avisados e a informação chega-lhe.

Posso trazer um livro? Sim. O retiro não proíbe a leitura. Muitas pessoas trazem um livro que não tiveram tempo de ler.

Tenho de ter experiência de meditação? Não. As meditações guiadas por Fabiana são acessíveis a principiantes. Se nunca meditou, isso não é um obstáculo.

E se sentir que não consigo estar sem o telemóvel? É uma preocupação legítima. O que observamos é que o impulso mais intenso passa nas primeiras horas. Mas se tiver razões específicas — profissionais ou pessoais — para não poder estar inacessível durante 72 horas, é melhor falar connosco antes de reservar.

Posso vir sozinho/a? Sim. As inscrições individuais são aceites.

O que acontece se o retiro não for o que esperava? Não controlamos o que cada pessoa vai viver. O que podemos garantir é o espaço, o silêncio, as refeições, e a presença de Fabiana. O resto depende de cada um.

Existe uma meditação mensal aberta ao público? Sim. Uma vez por mês, realizamos uma meditação na quinta, aberta a todos, incluindo principiantes. As datas e informações estão disponíveis por WhatsApp.


Para mais informações ou para verificar as datas disponíveis, contacte-nos pelo WhatsApp: +351 912 823 422.

O nosso retiro «Regresso a Si»

Três dias em silêncio nobre, em grupo de oito pessoas no máximo, em pleno Minho. 360 € por pessoa, tudo incluído.

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